CAP.II
Revi aquela amendoeira muitas vezes. Era uma árvore como outra qualquer. Mesmo na sombra, estava quente. Olhando um monte de areia e água salgada, tudo parecia ser exatamente como era: um calor desgraçado, areia e água salgada.
Alguns garotos desejam as meninas como quem quer tocar uma rosa, mas elas parecem preferir os que as desejam como quem quer montar uma bicicleta.
Meu apelido é palito e já não tenho mais dentes de leite.
Estou aqui, sentado numa cadeira enferrujada e torta, lendo uma piada suja e sem graça, escrita sobre a mesa onde descansam os meus livros pesados. Do alto, sopra o vento empoeirado do velho ventilador de teto. Ao meu lado, 30 adolescentes como eu, vestidos como eu, que ouvem e vêm as mesmas coisas que eu e ainda teimam em dizer que são diferentes.
O professor, um cara careca e barrigudo, me ajuda a desenvolver o cérebro enquanto atrofia a minha alma. E ele não faz por mal, mas por vingança.
Então, uma vez por semana, retiro a mascara de bom aluno e, entre uma aula e outra, subo na mesa, pinto a cara, bagunço o cabelo, abaixo as calças, declamo uma poesia. Todos riem comigo, alguns riem de mim... acanhados, inocentes, subversivos...
O sorriso é um ato revolucionário da alma contra a lógica alienante dos homens.
O sino toca, a aula termina. Volto pra casa de ônibus, meio aliviado, meio engessado, pensativo como um palhaço numa caixa.
Depois do banho, abro meu armário, visto a mascara mais atraente e vou para rua. Estou aprendendo algo que certamente mudará a minha vida, algo que não se aprende na escola, nem com livros pesados. Estou aprendendo a montar bicicletas.