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segunda-feira, 28 de abril de 2014

Filosofando

Na escuridão do quarto, com a cabeça sobre o travesseiro, à espera do sono que tarda, dou-me conta de que passei o dia a filosofar como um maldito suicida.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Meu papagaio Alemão diz coisas que as crianças não entendem


CAP.IV

Filosofia, pra mim, sempre foi coisa de gente feia, triste, mal amada e com fortes tendências suicidas.

A verdade pertence aos melhores argumentos, e eles normalmente podem ser encontrados nas mentes mais sombrias.
Perdi-me num labirinto de idéias. Desconstruí e recriei o mundo, e ainda assim não era capaz de me encontrar diante das densas sombras do meu ego, que intelectualizado em demasia, brincava com as palavras pelo pervertido prazer de vê-las desnudas diante de si.

Estou no meu quarto. Pelado na frente de um espelho, vejo-me de corpo inteiro. Um passo adiante e me olho nos olhos, tão perto que a respiração turva a imagem refletida. Entre eu e ela não há mistérios, está tudo lá. O mundo pertence a mim e a ele ofereço amor e dor conforme a minha conveniência. Sendo eu criatura e criador e não havendo nada de interessante no universo além de mim mesmo, distraio-me na prazerosa jornada de superar o homem que eu sou para, quem sabe, encontrar o homem além de mim. Tenho tudo que a inteligência pode conquistar e o dinheiro pode comprar. Como meu papagaio Alemão, que tem asas cortadas, não tem papas na língua nem dentes no bico, todos repetem o que eu digo.

Não há portas nem janelas para além do universo que criei.


sexta-feira, 21 de março de 2014

Ateismo e outras bobagnes

Outro dia, meu filho me veio com essa história boba de ser ateu... talvez a culpa tenha sido minha por não ter oferecido para ele uma educação religiosa. O problema é que sempre acreditei que a imagem de Deus que passamos para as crianças era muito tola e que por outro lado a verdadeira natureza de Deus é muito complexa para ser transmitida para quem quer que seja... 

Sempre achei engraçado um homem criado, tão vaidoso e orgulhoso de si mesmo, me ligar de vez em quando  me pedindo para fazer uma sopinha de cebola... nesses dias, ele vai até o seu velho quarto e veste um de seus pijamas antigos, que de tanto lavar já se vê o outro lado, calça as sandálias de dedo e fica para dormir.

Foi numa dessas noites entre colheres de sopa, o tempo, trivialidades e minhas pinturas que ele veio com essa conversa de ter matado Deus com as próprias mãos. Acho que ele queria me chocar... se eu tivesse ouvido aquela história de um adolescente teria achado coerente, mas foi com alguma frustração e desapontamento que me dei conta do quão imaturo era aquele homem que de tempos em tempos batia a minha porta pedindo colo, aprovação e proteção.

-Que tolice meu filho, qualquer garoto de 13 anos, que jogue vídeo games e tenha um pouco de revolta dentro de si seria capaz bolar uma história mais criativa!  - será que fui cruel?



- Seu herege! Não quero nem pensar sua avó escutando uma coisa dessas?!
Entendi que ela estava mais preocupada com minha avó do que com a morte de Deus e achei isso bem razoável.
A sopa estava ótima.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Em um universo sustentado por números, as coisas que sabemos sem saber parecem não fazer sentido algum

CAP.III

Vivemos num mundo onde vender a alma ao Diabo(1) tornou-se um rito de passagem.


Já não me recordo da criança que um dia eu fui. Já não vejo, há tanto tempo, meu próprio rosto que, perdido entre mascaras, não sei mais quem sou. Fico com a vaga lembrança de uma foto amarelada que tenho dos meus pais. Devo ser alguma coisa entre um e o outro ou entre um e dois.

Devidamente domesticado para a vida em sociedade, sou um jovem publicitário de sucesso, do tipo que ainda não tem cabelos brancos, que usa roupas descoladas e que se orgulha da própria barriga.


A minha mesa é moderna, grande e limpa. O meu escritório é grande, limpo, moderno e tem ar condicionado central. A minha estante está cheia de livros pesados, alguns "cult" e outros coloridos, nada que eu goste realmente, mas todos juntos ajudam na decoração e cumprem o seu papel: fazem-me parecer mais inteligente do que realmente sou.

Tornei-me ateu, primeiro por modismo, depois por convicção. Deus não é um cara muito popular no meio em que vivo. Mesmo os que acreditam, não costumam falar muito nele. 
Para "causar" digo que matei Deus com requintes de crueldade e, se me perguntam, eu conto como foi e depois que conto vem sempre o silêncio:

"Cortei as orelhas, arranquei os dedos, martelei as bolas, estourei os miolos. Cuspi na cara, bebi do sangue, mijei no corpo, lancei gasolina e toquei fogo em tudo."

Era pra ser uma piada, mas ninguém ri. É assim que desmascaro os falsos ateus. Não é preciso respeitar o que não existe.

Não espero milagres, não culpo ninguém e nem peço perdão.

Vendo coisas que não acredito para pessoas que não sabem quem são. O Diabo(1) frequenta meu escritório e tomamos um scot, sempre ás sextas-feiras.

Tenho um carro esporte importado, moro num flat, bebo muito, viajo bastante e como bem. Tenho uma coleção de bicicletas que monto sempre, de preferência aos domingos. As pessoas me invejam e a minha dentição, além de muito branca, está completa.




(1) El Diablo é o apelido carinhoso do meu chefe.