a história começa aqui

domingo, 15 de julho de 2012

pensamentos revolucionários

No caminho pra casa, pela janela do ônibus, vejo uma frase pichada no muro que diz: "É preciso endurecer, mas sem perder a ternura, jamais." E logo penso que essa frase cairia muito bem como estampa na minha cueca, porque, naquele momento, nenhuma revolução era mais importante do que aquela que acontecia ali mesmo... dentro das minhas calças! 

quinta-feira, 24 de maio de 2012

todos diferentes, todos iguais!


CAP.II

Revi aquela amendoeira muitas vezes. Era uma árvore como outra qualquer. Mesmo na sombra, estava quente. Olhando um monte de areia e água salgada, tudo parecia ser exatamente como era: um calor desgraçado, areia e água salgada.

Alguns garotos desejam as meninas como quem quer tocar uma rosa, mas elas parecem preferir os que as desejam como quem quer montar uma bicicleta.

Meu apelido é palito e já não tenho mais dentes de leite.

Estou aqui, sentado numa cadeira enferrujada e torta, lendo uma piada suja e sem graça, escrita sobre a mesa onde descansam os meus livros pesados. Do alto, sopra o vento empoeirado do velho ventilador de teto. Ao meu lado, 30 adolescentes como eu, vestidos como eu, que ouvem e vêm as mesmas coisas que eu e ainda teimam em dizer que são diferentes.

O professor, um cara careca e barrigudo, me ajuda a desenvolver o cérebro enquanto atrofia a minha alma. E ele não faz por mal, mas por vingança.
Então, uma vez por semana, retiro a mascara de bom aluno e, entre uma aula e outra, subo na mesa, pinto a cara, bagunço o cabelo, abaixo as calças, declamo uma poesia. Todos riem comigo, alguns riem de mim... acanhados, inocentes, subversivos...

O sorriso é um ato revolucionário da alma contra a lógica alienante dos homens.

O sino toca, a aula termina. Volto pra casa de ônibus, meio aliviado, meio engessado, pensativo como um palhaço numa caixa.

Depois do banho, abro meu armário, visto a mascara mais atraente e vou para rua. Estou aprendendo algo que certamente mudará a minha vida, algo que não se aprende na escola, nem com livros pesados. Estou aprendendo a montar bicicletas.

sábado, 12 de maio de 2012

dos amiguinhos lambuzados de areia

B1- Por que aquele menino tá sentado debaixo da árvore?
B2- Será que ele não pode tomar sol? 
B3- Ele deve tá com febre. Minha mãe diz que só fico quetinho quando tô com febre.
B1- Só pode ser...
B2-É... com certeza...
                            
                                 ...


B3- Ou vai ver que ele é lerdo assim mesmo! 
                        (Todos riem)
                                 ... 
                   (Todos banguelos :)



terça-feira, 10 de abril de 2012

do que não posso evitar

pensar
agir
tropeçar
cair
levantar
(re)pensar
(re)agir
tropeçar
(re)cair
levantar;
viver e recomeçar
em toda volta que o mundo dá.

sábado, 31 de março de 2012

um olhar pela janela

Se você gostou da história, deve ser uma pessoa romântica. Mas se for realista como eu, achará improvável tanta contemplação em uma criança sem dentes.

Para mim, o romantismo não é coisa de gente séria. Ninguém transforma o mundo sem encontrar as respostas para as perguntas certas.

Entre a criança que brinca na praia e a que fica sentada olhando para o mar, eu fui nenhuma delas. Eu sou a criança que, ainda sem dentes, vendo o esgoto passar na frente de casa, traça uma meta onde não cabe o descanso.

Uma criança sem dentes capaz de entender a palavra harmonia é tão improvável quanto a criança sem dentes que planeja, obstinadamente, emergir da pobreza. Uma mente pragmática e cartesiana definiria essas crianças como dois pontos fora da curva. Mas não é assim que vejo. Acredito em uma porque sou a outra, porque aquele sorriso vazio da história pertence ao meu filho e, em setenta anos de uma vida bem séria e bem boba, nada me trouxe tanta alegria e nada me fez sentir tão completo.

sábado, 10 de março de 2012

pela janela dos meus dentes


CAP.I

Era uma vez um menino sentado num vaso. E esse menino era eu. Não sei se o vaso era muito alto ou as minhas pernas muito curtas, mas sei que, naquele verão, sentado no vaso, meus pés não tocavam o chão.

Quando falam de mim, fico vermelho. E quando falo com os outros, fico também. Sou magro de frente e um fiapo de lado. Meus dentes caíram e agora vivo sorrindo com a mão sobre a boca.

Meus amigos correm, eu ando; eles gritam, eu não. Os outros perguntam: “Por que a água do mar é salgada?”. E eu: “Por que as pessoas são abestalhadas?”. Digo sempre: “Olá, como vai, por favor, obrigado e... Tio, me dá uma bala?!”.

Numa tarde daquelas de nuvens pequenas e céu grande, em que o sol queima a pele da gente, estou sentado embaixo de uma amendoeira. Enquanto meus amiguinhos brincam, pulam, cavam e se lambuzam de areia; fico quieto, só olhando o mar e a paisagem... E ao sentir que tudo está em completa harmonia: que as ondas quebram, o vento sopra e os pássaros voam; saio correndo, cheio de uma energia sapeca, sorrindo, sem vergonha, para os estranhos na rua.

Tomado por essa força estranha, sentindo “cosquinha” por dentro e por fora, dou gargalhadas com o corpo inteiro, e é impossível não notar que nem o mais carrancudo dos homens consegue resistir à graça do meu sorriso vazio.

Acho que pelas janelas dos meus dentes, todos podiam ver o mar que eu vi e sabiam, sem saber, que mesmo sendo bem bobos, somos tudo que precisamos ser.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Sobre os livros que não escrevi

Dizem que a vida segue em ciclos. Tenho visto os tais ciclos passarem por mim e a idéia de escrever um livro não me abandona.
Houve muitas fases: quando adolescente, descobri o prazer da leitura e junto com ele veio a vontade de escrever. Vaidoso, pensava em escrever um livro para mudar o mundo ”Filosofia Barata de um Sábio Charlatão”, mas não escrevi esse livro.
O estudo comparado de religiões despertou em mim o simples desejo de ser instrumento. Vaidoso, pensava que Deus deveria escrever um livro através de mim “Os Milagres do Santo de Casa”, mas não escrevi esse livro.
Hoje, quero escrever algo com o que há de mais simples nas idéias anteriores, cheio de poesia, espiritualidade, filosofia e uma pitada de humor. “O Livro”, este é o projeto que começa agora.