Se você gostou da história, deve ser uma pessoa romântica. Mas se for realista como eu, achará improvável tanta contemplação em uma criança sem dentes.
Para mim, o romantismo não é coisa de gente séria. Ninguém transforma o mundo sem encontrar as respostas para as perguntas certas.
Entre a criança que brinca na praia e a que fica sentada olhando para o mar, eu fui nenhuma delas. Eu sou a criança que, ainda sem dentes, vendo o esgoto passar na frente de casa, traça uma meta onde não cabe o descanso.
Uma criança sem dentes capaz de entender a palavra harmonia é tão improvável quanto a criança sem dentes que planeja, obstinadamente, emergir da pobreza. Uma mente pragmática e cartesiana definiria essas crianças como dois pontos fora da curva. Mas não é assim que vejo. Acredito em uma porque sou a outra, porque aquele sorriso vazio da história pertence ao meu filho e, em setenta anos de uma vida bem séria e bem boba, nada me trouxe tanta alegria e nada me fez sentir tão completo.
sábado, 31 de março de 2012
sábado, 10 de março de 2012
pela janela dos meus dentes
CAP.I
Era uma vez um menino sentado num vaso. E esse menino era eu. Não sei se o vaso era muito alto ou as minhas pernas muito curtas, mas sei que, naquele verão, sentado no vaso, meus pés não tocavam o chão.
Quando falam de mim, fico vermelho. E quando falo com os outros, fico também. Sou magro de frente e um fiapo de lado. Meus dentes caíram e agora vivo sorrindo com a mão sobre a boca.
Meus amigos correm, eu ando; eles gritam, eu não. Os outros perguntam: “Por que a água do mar é salgada?”. E eu: “Por que as pessoas são abestalhadas?”. Digo sempre: “Olá, como vai, por favor, obrigado e... Tio, me dá uma bala?!”.
Numa tarde daquelas de nuvens pequenas e céu grande, em que o sol queima a pele da gente, estou sentado embaixo de uma amendoeira. Enquanto meus amiguinhos brincam, pulam, cavam e se lambuzam de areia; fico quieto, só olhando o mar e a paisagem... E ao sentir que tudo está em completa harmonia: que as ondas quebram, o vento sopra e os pássaros voam; saio correndo, cheio de uma energia sapeca, sorrindo, sem vergonha, para os estranhos na rua.
Tomado por essa força estranha, sentindo “cosquinha” por dentro e por fora, dou gargalhadas com o corpo inteiro, e é impossível não notar que nem o mais carrancudo dos homens consegue resistir à graça do meu sorriso vazio.
Acho que pelas janelas dos meus dentes, todos podiam ver o mar que eu vi e sabiam, sem saber, que mesmo sendo bem bobos, somos tudo que precisamos ser.
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