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sábado, 10 de março de 2012

pela janela dos meus dentes


CAP.I

Era uma vez um menino sentado num vaso. E esse menino era eu. Não sei se o vaso era muito alto ou as minhas pernas muito curtas, mas sei que, naquele verão, sentado no vaso, meus pés não tocavam o chão.

Quando falam de mim, fico vermelho. E quando falo com os outros, fico também. Sou magro de frente e um fiapo de lado. Meus dentes caíram e agora vivo sorrindo com a mão sobre a boca.

Meus amigos correm, eu ando; eles gritam, eu não. Os outros perguntam: “Por que a água do mar é salgada?”. E eu: “Por que as pessoas são abestalhadas?”. Digo sempre: “Olá, como vai, por favor, obrigado e... Tio, me dá uma bala?!”.

Numa tarde daquelas de nuvens pequenas e céu grande, em que o sol queima a pele da gente, estou sentado embaixo de uma amendoeira. Enquanto meus amiguinhos brincam, pulam, cavam e se lambuzam de areia; fico quieto, só olhando o mar e a paisagem... E ao sentir que tudo está em completa harmonia: que as ondas quebram, o vento sopra e os pássaros voam; saio correndo, cheio de uma energia sapeca, sorrindo, sem vergonha, para os estranhos na rua.

Tomado por essa força estranha, sentindo “cosquinha” por dentro e por fora, dou gargalhadas com o corpo inteiro, e é impossível não notar que nem o mais carrancudo dos homens consegue resistir à graça do meu sorriso vazio.

Acho que pelas janelas dos meus dentes, todos podiam ver o mar que eu vi e sabiam, sem saber, que mesmo sendo bem bobos, somos tudo que precisamos ser.

Um comentário:

  1. :)
    Alma de poeta, me emociona toda vez que leio esse cap. I
    Esse livro promete!

    <3

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