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quarta-feira, 19 de março de 2014

Em um universo sustentado por números, as coisas que sabemos sem saber parecem não fazer sentido algum

CAP.III

Vivemos num mundo onde vender a alma ao Diabo(1) tornou-se um rito de passagem.


Já não me recordo da criança que um dia eu fui. Já não vejo, há tanto tempo, meu próprio rosto que, perdido entre mascaras, não sei mais quem sou. Fico com a vaga lembrança de uma foto amarelada que tenho dos meus pais. Devo ser alguma coisa entre um e o outro ou entre um e dois.

Devidamente domesticado para a vida em sociedade, sou um jovem publicitário de sucesso, do tipo que ainda não tem cabelos brancos, que usa roupas descoladas e que se orgulha da própria barriga.


A minha mesa é moderna, grande e limpa. O meu escritório é grande, limpo, moderno e tem ar condicionado central. A minha estante está cheia de livros pesados, alguns "cult" e outros coloridos, nada que eu goste realmente, mas todos juntos ajudam na decoração e cumprem o seu papel: fazem-me parecer mais inteligente do que realmente sou.

Tornei-me ateu, primeiro por modismo, depois por convicção. Deus não é um cara muito popular no meio em que vivo. Mesmo os que acreditam, não costumam falar muito nele. 
Para "causar" digo que matei Deus com requintes de crueldade e, se me perguntam, eu conto como foi e depois que conto vem sempre o silêncio:

"Cortei as orelhas, arranquei os dedos, martelei as bolas, estourei os miolos. Cuspi na cara, bebi do sangue, mijei no corpo, lancei gasolina e toquei fogo em tudo."

Era pra ser uma piada, mas ninguém ri. É assim que desmascaro os falsos ateus. Não é preciso respeitar o que não existe.

Não espero milagres, não culpo ninguém e nem peço perdão.

Vendo coisas que não acredito para pessoas que não sabem quem são. O Diabo(1) frequenta meu escritório e tomamos um scot, sempre ás sextas-feiras.

Tenho um carro esporte importado, moro num flat, bebo muito, viajo bastante e como bem. Tenho uma coleção de bicicletas que monto sempre, de preferência aos domingos. As pessoas me invejam e a minha dentição, além de muito branca, está completa.




(1) El Diablo é o apelido carinhoso do meu chefe.

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